Confira a tradução completa da matéria original:
“Eu não estava tentando ‘matar’ a Hannah Montana”: Miley Cyrus fala sobre ‘reivindicar’ o ícone da Disney após 20 anos, ficar sóbria e se reconectar com o pai, Billy Ray
Em uma sexta-feira absurdamente quente de fevereiro, 215 fãs sortudos fazem fila no Sunset Gower Studios, em Hollywood, para testemunhar a ressurreição de um ícone pop.
Há mulheres usando microfones de headset, homens com perucas laranja, cachecóis brilhantes jogados sobre vestidos de paetê com cores conflitantes, camisetas vintage de turnê, meias-calça com estampa de zebra amarela, pequenas bolsas presas a jaquetas jeans turquesa felpudas, cintos sobre cintos sobre cintos e uma luva rosa sem dedos. Uma mulher veio do Texas para presenciar esse evento misterioso — outra viajou de São Paulo, Brasil.
Logo, essa multidão de millennials extremamente ornamentados é conduzida para dentro de um estúdio, com seus celulares guardados em bolsas lacradas. De um lado: uma praia cenográfica e o closet de quarto dos sonhos de uma adolescente. Do outro: um palco vazio decorado com luzes cintilantes.
Uma hora se passa e então, por uma abertura na cortina, Miley Cyrus surge sorrindo e inclina seus óculos escuros pretos oversized. Ela entra no palco com um vestido preto longo e brilhante e cumprimenta os fãs que gritam.
“Bem-vindos ao Hannahversário”, diz ela, afastando sua franja loira enquanto começa a cantar “This Is the Life”, a música com influência country que apresentou “Hannah Montana” ao mundo exatamente 20 anos atrás. Em seguida, levantando o pedestal do microfone sob o brilho de um holofote, Cyrus solta a poderosa balada “The Climb”.
“Vocês vão ficar chocados com o que está por vir”, diz Cyrus antes de desaparecer atrás da cortina para trocar de figurino. Ela pode estar se referindo ao próximo número — “The Best of Both Worlds” — ou à celebração mais ampla: este show está sendo gravado como parte de um especial de uma hora de aniversário de “Hannah Montana”, que será exibido no Disney+ no dia 24 de março.
À parte a voz de Cyrus — agora mais encorpada e rouca — as músicas soam exatamente, gloriosamente, iguais.
“Eu não queria fazer essa abordagem moderna da Hannah”, diz Cyrus alguns dias depois, em um café aconchegante e quase vazio em Silver Lake. “Eu queria preservar [sua imagem]. Mas agora a Hannah usa Gucci”, afirma, alongando a pronúncia da marca. “Ela evoluiu. Precisa parecer um pouco menos ‘Galleria’”, acrescenta, fazendo referência ao shopping em Glendale onde costumava comprar algumas das regatas com pedrarias e calças skinny da personagem.
Mas “Hannah Montana” era muito mais do que moda; foi um fenômeno multimídia que transformou Cyrus em uma das crianças mais famosas da história. De 2006 a 2011, a série — sobre uma adolescente chamada Miley Stewart que vive uma vida dupla como cantora pop — foi a joia da coroa do império do Disney Channel no auge de seu domínio sobre o público jovem americano. (Seu legado permanece: mais de meio bilhão de horas da série foram assistidas em streaming nesta década no Disney+.)
O álbum da primeira temporada foi a primeira trilha sonora de TV a estrear em 1º lugar na Billboard 200, e a turnê “Best of Both Worlds”, de 2007, esgotou 71 arenas pela América do Norte. O documentário que acompanhou a turnê se tornou, na época de seu lançamento, o filme de concerto com maior bilheteria da história.
“Houve momentos em que Hannah Montana parecia os Beatles ou algo assim”, diz Cyrus. (De fato, uma parte inteira do documentário é dedicada a garotas gritando no topo dos pulmões.)
Cheguei cedo a esse café no lado leste e disse à recepcionista que encontraria alguém muito importante, perguntando se poderíamos ficar em uma mesa mais reservada ao fundo. Ela não se importou — isso é Los Angeles; todo mundo acha que é famoso — e, depois de um tempo, comecei a me preocupar que os funcionários achassem que eu tinha levado um “bolo”.
Mas quando Cyrus chegou, uma curiosidade silenciosa tomou conta do lugar: ela é uma estrela de verdade, uma estrela rara que altera o centro gravitacional de qualquer ambiente que ocupa.
Seu cabelo está arrumado em uma franja dourada e levemente despenteada, e ela usa óculos com lentes coloridas e uma camiseta branca que destaca a colagem de tatuagens espalhadas pelos braços. Sua presença é acolhedora e tranquila. Segurando ao mesmo tempo um latte com leite de aveia e um chá de camomila, ela parece a versão adulta da popstar fictícia mais famosa do mundo, ressurgindo após um hiato de 15 anos.
Ela está ali, em parte, para falar sobre o especial — e o resume com estas palavras: “Parecia que eu estava em casa novamente.”

Após o fim de “Hannah Montana”, Cyrus construiu sua própria carreira, tornando-se a cantora e compositora versátil e líder de paradas por trás de sucessos como “Wrecking Ball”, “Party in the U.S.A.” e “Flowers”, vencedora do Grammy.
Aos 33 anos, ela é uma das artistas mais bem-sucedidas — e, por muito tempo, mais observadas — de sua geração. (Mais sobre isso adiante.)
Cyrus já abandonou a imagem “certinha” da Disney, mas agora retornou às suas raízes loiras douradas para “reivindicar” Hannah Montana.
“Muitos artistas sentem que, para se tornarem a próxima versão de si mesmos, precisam deixar algo para trás”, diz Cyrus. “Mas eu prefiro ser mais como uma linda colcha de retalhos. Prefiro pegar cada pequeno pedaço de tudo o que já fui e criar um mosaico de quem eu sou agora — sem descartar esse passado, mas permitindo que ele venha comigo.”
Ela espera que o especial inspire as pessoas a “não levarem tudo tão a sério”.
No ano passado, Cyrus começou a dar pistas sobre os planos para o aniversário de 20 anos de “Hannah Montana”, insinuando em entrevistas e tapetes vermelhos que tinha algo “especial” na manga. Na época, ela estava mentindo. Ou melhor, manifestando?
“Eu aprendi esse hábito terrível — mas que, na verdade, acho que foi um bom conselho — com a Dolly”, diz, referindo-se à lenda da música country que ela chama de madrinha. “Ela me disse que, se você quer que algo aconteça, promova antes mesmo de existir. Assim ninguém pode dizer não. Então eu simplesmente comecei a divulgar um especial de 20 anos de ‘Hannah Montana’ que literalmente não existia.”
“Acho que até mesmo a Disney às vezes esquece a conexão entre mim e a Hannah”, acrescenta. “Não é só uma série de TV. Eu vejo todos os dias o quanto a Hannah é importante para as pessoas. Quando viajo, as pessoas me trazem produtos da ‘Hannah’. Elas perguntam: ‘Você vai fazer outra temporada?’”

Então Cyrus plantou as sementes no verão passado, recuou e observou a expectativa crescer. Ela começou a enviar reações dos fãs para a Disney, dizendo: “Estou te dizendo, isso seria enorme.”
“Ela fez isso acontecer pela força da vontade”, diz o executivo da Disney Charlie Andrews, que ajuda a desenvolver novas comunidades de fãs para antigos programas do Disney Channel. A empresa começou o planejamento em dezembro e, desde janeiro, tem sido uma “corrida contra o tempo” para executar a visão de Cyrus.
“A coisa em que ela foi mais firme é que isso é para os fãs. Isso influenciou literalmente todas as decisões que ela tomou.”
Cyrus primeiro recrutou Alex Cooper, apresentadora do podcast “Call Her Daddy” e autodeclarada superfã de “Hannah Montana”, para entrevistá-la no especial.
“Ela entende a Hannah de uma forma que eu não poderia”, diz Cyrus. “Eu nunca tive a experiência de viver a Hannah como uma fã, no meio da multidão com outras crianças.” Com isso em mente, Cooper ajudou a desenhar o evento em torno do que os fãs realmente se importam, chegando até a rejeitar algumas ideias de Cyrus.
“Ela dizia: ‘Como fã de Hannah, ninguém quer isso’”, conta Cyrus. Guiados por esse olhar dos fãs, eles garantiram incluir os pequenos detalhes que despertariam nostalgia: os movimentos de cabelo, os comerciais clássicos da varinha do Disney Channel e, claro, a música de transição “Ooh-whoa-ooh-whoa-ooh-ooh-whoa”.
A mãe de Cyrus, Tish, trouxe dezenas de figurinos, cartas de fãs e álbuns de recordações dos arquivos, e a Disney recriou os cenários da casa dos Stewart.
Uma coisa que Cyrus não quis reproduzir foi a peruca da Hannah — em vez disso, ela pintou o próprio cabelo e adotou franja.
Cooper também organizou uma participação especial de Selena Gomez, colega da Disney e atriz convidada de “Hannah Montana”, que surpreendeu Cyrus no set. “Eu amo a Selena, mas não tinha ideia de o quanto nossa amizade significava para os fãs”, diz Cyrus.
Também foi ideia de Cooper abrir o especial com um momento emocional, mostrando Cyrus dirigindo de Malibu até o estúdio.
“Eu não tinha pensado na conexão entre a casa da Hannah em Malibu e a minha casa em Malibu”, diz Cyrus, “e no fato de minha casa ter pegado fogo e eu ter reconstruído.”
Então vieram as performances. Cyrus não cantava “Best of Both Worlds” desde 2008, mas bastaram três ensaios para ela voltar completamente ao ritmo.
“Foi literalmente como andar de bicicleta. Os dançarinos estavam fazendo umas coisas, e eu pensei: ‘Isso não é o original!’”, diz ela, balançando o dedo e enfatizando seu sotaque sulista. “E eles disseram: ‘Estamos tentando modernizar’. E eu respondi: ‘Se não está quebrado, não mexe!’”
Ainda assim, ela pretende trazer novidades, incluindo a performance de uma música nova e original no especial.

Era importante para Cyrus preservar o espírito da música de Hannah. Ela pode estar cantando o mesmo tema da Disney que cantava aos 13 anos, mas não há nenhum traço de ironia ou deboche.
“Nós não queríamos ironia. Isso não é uma piada”, diz ela. “Eu não queria que isso fosse um momento viral. Meu objetivo ao fazer isso não era ‘quebrar a internet’.”
Segundo Cyrus, seu objetivo era fazer com que os fãs “se sentissem vistos”. “A minha vida inteira existe por causa dessa lealdade.”
Na gravação, o público do estúdio é orientado a cantar “Hannah… Hannah…” antes de Cyrus voltar ao palco para apresentar “Best of Both Worlds”. Mas, antes de ela reaparecer, o coro muda para “Miley”. “Isso foi realmente emocionante para mim”, diz ela depois. “Acho que eles sentiram algo como: ‘Queremos garantir que a Miley também se sinta celebrada nesses 20 anos.’ Não é só sobre a série em si. É sobre toda a evolução do meu crescimento.”
“Eu amo o presente e amo o futuro. Mas o passado não é um lugar onde gosto de viver muito”, diz Cyrus, apertando mel de um tubo plástico dentro do chá.
Voltando então à questão da exposição: em 2008, enquanto filmava o filme de “Hannah Montana”, Cyrus, então com 15 anos, apareceu na capa da Vanity Fair usando apenas um lençol. A reação negativa à foto considerada ousada foi tão intensa que Cyrus publicou um pedido de desculpas, que acabou na capa do New York Post com a manchete “MILEY’S SHAME” (“A vergonha de Miley”).
“Lembro de estar sentada no computador da família lendo o que as pessoas estavam dizendo sobre mim”, conta Cyrus. “Eu não estava exatamente arrependida, mas fiquei constrangida com a reação, e parecia que pedir desculpas apagaria muitos incêndios.”
Hoje, olhando para trás, ela afirma: “Não acho que aquilo merecia um pedido de desculpas, porque eu não fiz nada de errado.”
Nos anos seguintes, Cyrus voltou a ganhar manchetes por atitudes típicas da adolescência. Aos 18, perdeu um contrato multimilionário com o Walmart após o vazamento de um vídeo em que aparecia fumando um bong. E, um ano depois, foi demitida do papel principal em “Hotel Transylvania” por causa de uma foto vazada em que posava com um bolo de aniversário em formato de pênis.
Esses escândalos doeram na época, mas hoje ela não mudaria nada. “Arrependimento é algo do passado e não serve para nada”, diz. Se a Disney às vezes esquece a conexão entre Cyrus e Hannah, talvez seja porque, por muito tempo, parecia que a própria Cyrus queria esquecer também.
Em 2013, um ano após o fim da série, aos 20 anos, ela lançou o que foi visto como uma reinvenção rebelde.
Trocou a peruca de Hannah por um corte pixie loiro descolorido e penteado para trás. Passou a andar com rappers e a fumar bastante maconha. Mostrava a língua com tanta frequência que virou tema de análises em veículos como The Atlantic e The Guardian.
E incendiou de vez os resquícios de sua imagem da Disney em uma performance infame no VMA, na qual fez twerking em Robin Thicke.
Alguns meses depois, ela apresentou o “Saturday Night Live” e declarou, em tom de brincadeira, que Hannah Montana havia sido “assassinada”. Celebrando o aniversário de 10 anos da série, em 2016, Cyrus escreveu no Instagram: “Mesmo que HM esteja cortada em pedacinhos e enterrada no meu quintal, ela sempre terá um lugar muito especial no meu coração!”
Mas, neste aniversário, Hannah Montana está muito viva. Ao contrário do que muitos acreditam — e até de algumas declarações que ela mesma fez no passado — Cyrus afirma:
“Eu não estava tentando matar a Hannah. Eu só estava evoluindo. Ser reconhecida como uma adolescente passando por diferentes fases e etapas às vezes era estranho”, continua, “mas foi isso que me ajudou a me conectar com as crianças que assistiam em casa.”
Cyrus observa que se reinventar foi um risco, quando poderia ter seguido um caminho mais seguro estrelando mais filmes de “Hannah Montana” e outros projetos da Disney.
“Eu me apresentei ao mundo de forma ousada e sem pedir desculpas naquele momento, quando poderia ter seguido pelo outro caminho e jogado de forma segura”, diz. “Talvez isso tivesse sido bem-sucedido na época e não teria sido um fardo tão grande, mas eu não teria tido a recompensa. Não sei se teria alcançado a longevidade que minha carreira tem hoje.”
Ao longo de todas as diferentes fases da carreira de Cyrus, uma constante em sua vida é o apoio da mãe.
“Quando você é criança, seus pais não querem comprar uma jaqueta do seu tamanho atual porque você ainda está crescendo; eles compram um tamanho maior para durar mais”, diz ela. “Foi isso que minha mãe fez por mim na minha carreira.”
Tish até eternizou a jornada das duas na pele. “Minha mãe literalmente tatuou a letra de ‘The Climb’ nas costas”, conta Cyrus. “Tipo, um refrão inteiro e uma ponte.” Ela ri.
“As pessoas sempre perguntam para ela: ‘O que você estava pensando quando a Miley fazia aquelas coisas malucas?’ E ela responde: ‘Eu era quem mandava ela fazer!’”
Cyrus nasceu em 1992, ano em que seu pai, Billy Ray Cyrus, teve a música country número 1 nos Estados Unidos. Seu nome de nascimento era Destiny Hope Cyrus, mas seu jeito alegre lhe rendeu o apelido de “Smiley”, depois encurtado para Miley.
A família vivia no Tennessee, e Tish dirigia com Cyrus atravessando estados para participar de audições. Aos 12 anos, ela tinha poucos trabalhos no currículo: três episódios do drama médico “Doc”, ao lado do pai, uma pequena participação em “Big Fish”, de Tim Burton, e um comercial de torta de frango.
Quando a Disney começou a escalar uma nova sitcom sobre uma estudante do ensino fundamental que levava uma vida secreta como cantora pop, Cyrus inicialmente fez teste para o papel da melhor amiga, Lilly — que acabou sendo interpretada por Emily Osment.
Depois, a emissora pediu que Cyrus gravasse um teste para a personagem principal — uma garota chamada Chloe.

Mas a Disney seguiu em outra direção, decidindo que Cyrus era pequena e jovem demais. Então ela voltou para o time de cheerleading da sua escola em um subúrbio de Nashville, enquanto a Disney gravava um piloto com outro elenco.
Um ano depois, o telefone da família Cyrus tocou: eram os produtores. “Hannah Montana” simplesmente não estava funcionando, e eles queriam que Cyrus voasse para Los Angeles para fazer um novo teste — desta vez presencial.
Cyrus lembra de ter ido ao shopping no Tennessee para escolher uma roupa para a audição. Foi lá que viu seu destino pendurado em um cabide: uma camiseta azul e branca com a frase “Eu deveria ter meu próprio programa de TV”.
Ela conseguiu o papel, e então chegou a hora de escolher o pai da Hannah. Segundo Tish, uma diretora de elenco da Disney, encantada com Billy Ray, brincou: “Uma pena que não podemos pagar pelo pai verdadeiro dela”, e Tish respondeu: “Ah, talvez possam sim.”
Ela convenceu o então marido a voar para a Califórnia e fazer o teste. Billy Ray estava gravando “Doc” em Toronto, dividindo seu tempo entre o Canadá e o Tennessee. Tish viu “Hannah Montana” como uma oportunidade de reunir a família.
“Mas meu pai é bom demais”, diz Cyrus. Ela conta uma história que virou folclore familiar:
“Ele saiu para o estacionamento, chamou outros pais, trouxe eles para dentro da Disney e dizia: ‘Vocês deveriam contratar esse cara! Ele é um ótimo ator!’ E minha mãe estava atrás dele, apertando suas costas e dizendo: ‘Cala a boca! A gente precisa que você consiga o papel para podermos nos mudar para cá!’”
“Meu pai sempre diz: ‘Quando você arrasa, não precisa de juiz.’ Nós arrasamos”, lembra Cyrus. “Ficou tão óbvio, depois de todos os outros pais, que não dá para fingir o tipo de conexão que a gente tem. As piadas internas, os apelidos, os cumprimentos, cantar juntos. Foi um nocaute.”
O resto é história: Billy Ray estrelou 99 episódios da série como um cantor country aposentado que gerencia e escreve músicas para sua filha popstar. Nos últimos anos, a televisão infantil passou por um momento de revisão, impulsionado por uma docussérie de 2024 que abordou supostos abusos durante a gestão do produtor Dan Schneider na Nickelodeon.
Cyrus acredita que ter Billy Ray no set ajudou a protegê-la do lado obscuro da fama infantil.
“Meus pais não precisavam que eu fosse famosa para sobreviver ou ter estabilidade”, diz. “O que acontece com muitas dessas crianças é que os pais querem isso mais do que elas, ou as crianças acabam sendo responsáveis por toda a renda da família. Esse nunca foi o meu papel. Cada centavo que eu ganhei foi para minha conta, porque meus pais eram corretos.”
Durante os cinco anos de “Hannah Montana”, o camarim de Cyrus era conectado ao do pai, e entre os dois havia uma cozinha transformada em escritório, onde sua avó, Loretta “Mammie” Finley, administrava o fã-clube.
“Meu pai estava no set todos os dias, então não havia nada que pudesse acontecer sem que ele soubesse”, diz Cyrus. “Nunca houve um momento em que eu ficaria sozinha naquele camarim.”
À medida que o casamento de seus pais se deteriorava no final de “Hannah Montana”, o relacionamento de Cyrus com o pai também começou a se desgastar. O afastamento dos dois aconteceu publicamente durante o longo processo de divórcio de Billy Ray e Tish, finalizado em 2022.
Eles ficaram anos sem se falar. Então, em 2025, Cyrus escreveu uma música para ele chamada “Secrets”, como um gesto de reconciliação, com participação de Lindsey Buckingham e Mick Fleetwood — já que Fleetwood Mac é a banda favorita de seu pai. Na música, Cyrus canta: “Recue todas as suas forças / Uma bandeira branca na guerra.”
Billy Ray chorou ao ouvir a canção, escrevendo no Instagram: “Uma grande música pode fazer mais pela alma do que um milhão de sessões de terapia.” Os dois se reencontram no especial de “Hannah Montana”, dando uma leve esbarrada de quadril em uma réplica da sala de estar da família Stewart.
Durante a pandemia, quando estava na casa dos vinte anos, Cyrus tomou uma decisão que mudou sua vida: ficou sóbria.
“Não é surpresa que eu tenha tido minhas experiências com drogas e álcool”, diz, refletindo sobre a vertigem da fama precoce. “Eu estava acostumada a viver sempre no auge, e acho que nunca aprendi a desacelerar. Agora, com uma perspectiva sóbria, consigo ter compaixão e compreensão por mim mesma.”
Além da terapia tradicional, ela também experimentou EMDR, um tipo de psicoterapia baseada em movimentos oculares guiados. Ela credita à técnica o fato de tê-la ajudado a enfrentar a origem de sua ansiedade — e até a superar o medo de palco.
“Você não viu nervosismo nenhum, viu?”, pergunta sobre a gravação do especial de “Hannah Montana”. “No passado, isso teria tomado conta de todo o meu corpo. Eu teria travado.”
Isso não significa que Cyrus pretende voltar a fazer turnês. Ela abandonou as grandes arenas após a turnê “Bangerz”, em 2014, e desde então tem se apresentado principalmente em festivais selecionados, programas de TV ao vivo e shows mais íntimos, como apresentações privadas no Chateau Marmont, em Los Angeles.
“Eu sinto falta e amo shows ao vivo”, diz Cyrus. “Mas ficar seis meses por ano na estrada, longe da minha família, da minha rotina e da minha vida normal, simplesmente não é o melhor para mim.”

Atualmente, Cyrus é apontada como a principal favorita nas apostas para ser a atração principal do Super Bowl do próximo ano. Ela aceitaria um convite para se apresentar?
“Eu sempre acho que o Super Bowl parece pressão demais”, diz ela. “Eu teria que fazer um trabalho mental para não tornar isso sobre o Super Bowl, porque aí você não consegue evitar pensar: ‘São milhões de pessoas, é o evento mais assistido do mundo.’”
“Mas, se eu conseguisse encontrar uma forma de fazer exatamente como foi o ‘Hannahversary’ — percorrendo minha discografia e valorizando cada música, cada era pelo que ela é — acho que conseguiria fazer isso dentro de mim.”
Cyrus também se mostra aberta em relação à atuação. Seu último papel relevante na tela foi em um episódio de “Black Mirror”, em 2019, no qual interpretou — naturalmente — uma estrela pop.
Ela diz estar “muito interessada” em voltar a atuar: “Só ainda não encontrei o papel certo para mim.” Inclusive, já começou a anotar algumas ideias próprias. “Eu gostaria de um personagem que fosse uma extensão de mim. Ou algo completamente diferente de quem eu sou.”
Se o futuro parece indefinido, é porque Cyrus prefere assim. “Eu amo mudar”, diz. “Qualquer coisa que eu diga hoje pode não valer amanhã.” Ao mesmo tempo, ela finalmente chegou a um ponto em que tudo parece alinhado.
“Minha vida é tão bonita. Não sinto mais que estou nadando contra a corrente”, afirma. No ano passado, ela ficou noiva do namorado de longa data, o músico Maxx Morando.
“Eu gosto da forma como as pessoas me veem. E quando eu saí de ‘Hannah’ e lancei ‘Bangerz’, eu não me sentia assim.”
Naquela época, parecia que Cyrus carregava o peso do “reino mágico” da Disney. Nos anos seguintes, ela acredita que as expectativas do público em relação a estrelas mirins mudaram. E, embora não use redes sociais, Cyrus acredita que a mídia hoje é menos cruel do que na época do auge dos tabloides.
“Somos muito mais tolerantes e celebramos mais a individualidade das pessoas do que há 10 anos”, diz. “Gosto de pensar que ajudei a impulsionar isso.” À medida que cresceu, Cyrus contou com mentoras lendárias da música, como Dolly Parton, Joan Jett e Stevie Nicks.
E ela espera, um dia, assumir um papel semelhante para artistas mais jovens que seguem seus passos. Quando Chappell Roan falou abertamente sobre os desafios com assédio de fãs, Cyrus foi uma das primeiras celebridades a procurá-la.
“Eu nunca me curvo a intimidações. Sempre que sinto que alguém está sendo alvo de bullying, fico muito protetora”, diz. “Quando vejo pessoas passando por dificuldades, sou sempre a primeira a perguntar: ‘Posso entrar em contato com elas?’ Quero mostrar aos artistas como ter uma vida equilibrada.”
De volta ao estúdio, enquanto a banda se reorganiza entre uma música e outra, Cyrus observa os fãs com headsets e perucas — talvez impactada pelo fato de que eles já não são mais crianças.
“Eu costumava pensar na Hannah como algo separado de mim”, diz Cyrus ao microfone dourado. Ela via a personagem como uma fantasia — uma peruca que colocava para brincar de faz de conta. Mas recentemente teve uma epifania.
“Este especial”, diz Cyrus, “é minha forma de reivindicar a união entre Hannah e Miley.”
Ela desenvolve essa ideia depois, no café, explicando como viver uma vida dupla na TV a ensinou a compartimentalizar diferentes partes de sua identidade:
Se Miley Stewart representava a pureza da vida normal e Hannah Montana simbolizava magia e possibilidade, então, por muitos anos, Miley Cyrus — a pessoa real — representava liberdade e autenticidade. Mas também era um escudo.
“Acho que criei uma persona ‘Miley Cyrus’ para me proteger”, diz, “para que eu pudesse ter a Miley dos bastidores. Mas, conforme fui amadurecendo, consegui integrar o que amo em todas elas em uma única pessoa.”
No final de “Hannah Montana”, após revelar sua verdadeira identidade, Miley Stewart recusa um grande papel no cinema e decide ir para a faculdade com Lilly, escolhendo a normalidade em vez da vida de superstar.
Mas, para Cyrus, não é algo tão binário assim.
“Eu consigo ter tudo o que quero”, diz. “Meu relacionamento é privado, meus negócios são bem-sucedidos e eu posso aproveitar as pequenas coisas que as pessoas dão como garantidas, como acordar na minha própria cama e alimentar meus cachorros.”
Cyrus se inclina para frente, com os olhos arregalados por trás das lentes coloridas.
“Mas também posso ser a Hannah novamente e ver pessoas chorando porque acabaram de ouvir ‘This Is the Life’ ao vivo. Eu amo que construí minha vida dessa forma.”
Não é exatamente o “melhor dos dois mundos”, mas algo completo. Levou 20 anos para se desenvolver, mas essa é a nova música-tema de Cyrus: “Eu posso realmente ter tudo.”
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