Há exatos um ano e quatro meses de seu último álbum de estúdio, Miley — agora ex-Cyrus — traz de volta o holofote que tanto ansiou em “Something Beautiful” para seu novo trabalho e décimo álbum de estúdio, “Bass Persuades”. Desta vez, inclusive, com uma casa nova para habitar seus novos futuros projetos.
Com selo próprio (MCEO) e distribuição capitalizada pela Atlantic Records, Miley traz o que parece ser uma extensão mais madura e experimental do seu trabalho anterior. “Bass Persuades” abraça colaboradores já conhecidos em sua produção que parecem entender e evoluir no mesmo ritmo frenético que a mente da cantora surfa em uma explosão de experimentações que vão da nostalgia melódica setentista do ABBA até o PROG moderno da música eletrônica. Maxx Morando, Kid Harpoon, Michael Pollack e demais colaboradores traduzem bem em uma produção viciante e nada óbvia a mensagem que a Miley anseia em passar.
Entretanto, ainda falando exclusivamente do projeto, os amantes da faixa-título tropeçam em uma armadilha bem estruturada pela equipe da cantora. Não é de hoje que um problema de comunicação é notado, relacionado à venda dos projetos que Miley encabeça. Movimento perigoso, pois uma quebra de expectativa do público pode ser fatal e iminente, tendo em vista que o consumidor final é seu principal alvo. Bass Persuades, e aqui falamos da faixa em questão, se distancia das demais produções. Sendo essa, talvez, a mais radiofônica no geral.
Com composições que permeiam entre a sua platônica e eterna paixão pelo seu marido e produtor Maxx Morando — e aqui falamos de 90% das faixas —, até uma honesta carta aberta e de quase-reconciliação com sua irmã caçula, Noah. Miley abraça mais uma vez a honestidade e assume o posto de compositora em todas as onze faixas do novo disco. Como a cantora salientou, é um álbum de amor. E isso pode ser notado facilmente em sua primeira audição.
Abaixo, analisamos faixa a faixa, emitindo uma opinião sincera. Deixando de lado nossos quase vinte anos de dedicação e eterno amor pela artista que já abraçou diferentes gêneros em sua jornada.
Em “Bass Persuades”, primeira faixa do disco e que carrega consigo o nome do projeto, Miley possui e transmite uma clara mensagem: as crianças não querem dançar. Em um mundo de fato justo, e aqui eu espero estar prevendo brevemente o futuro, essa faixa seria a grande campeã do “Video For Good” no MTV VMAs.
Aqui a comunicação se faz clara, a nova geração está permitindo que novas experiências reais escorram pelo ralo da tecnologia e deixem de ser vividas em troca de um tempo maior em frente à tela. Em trechos como “Grudou os olhos na tela do celular, mas perdeu o sucesso sem a MTV. Volte ao analógico, dê um toque cinematográfico…” Miley clama por experiências reais, exemplificando e trazendo o saudosismo de tempos onde o mundo offline era uma completa realidade.
Em uma produção moderna e bastante atual, mas ao mesmo tempo mesclada com referências de hits que embasaram os anos noventa e a década de dois mil, nota-se fontes claras em diferentes trechos e melodias desta faixa em específico. Particularmente falando, podemos observar sonoramente uma inspiração de Britney Spears e Madonna como em “Me Against The Music” (2003). E se formos mais atentos, uma breve semelhança a “Just Dance” (2008) de Lady Gaga. Bass Persuades inicia o álbum de forma lúdica, com um upbeat que te faz querer dançar na primeira ouvida, revolucionando, talvez, a mensagem central.
A segunda faixa intitulada “Different Religion” nos apresenta a banda de rock queer-novaiorquina Model/Actriz. Aqui, além da divisão dos vocais com a Miley, a banda também assume a produção direta, embarcando em um ritmo frenético, agressivo e quase sobrenatural em seu exagero cuidadosamente bem articulado nos instrumentais.
Com um refrão forte e capaz de grudar em seu subconsciente, a voz grave do vocalista Haden incorpora perfeitamente em uma divisão de estrofes e pós-produção super cuidadosa. Para além da inspiração direta do gênero já consumido pela Model/Actriz, a faixa faz lembrar inspirações como Maneskin, que enquanto mantinha sua atividade, externou sua vontade de uma colaboração com a Miley.
Aqui podemos assumir que, apesar dos símbolos religiosos e analogia trazidos na composição, a letra se torna plano de fundo para dar destaque ao ritmo e melodia envolvente.
Fecho minha opinião pessoal sobre esta faixa assumindo ser minha favorita de todo o projeto atual da cantora. E externo meu desejo de que, um dia, Miley possua o anseio de produzir um disco inteiramente na sonoridade em questão. Seria uma figura materna perfeita para o Plastic Hearts (2020).
Para abrir as várias baladinhas do álbum, “Let’s Get Married” traz o forte time do smash-hit Flowers e outras canções downbeat da discografia da Miley, como Used To Be Young (2023), Pretend You’re God (2025) e End Of The World (2025). Aqui, o time de produtores composto por Aldae, Monsters & Strangerz, Michael Pollack e Kid Harpoon, bebem sabiamente da fonte oitentista em uma onda de sintetizadores que permeiam entre o lúdico, romântico e melancólico.
Miley Cyrus te convida para fazer parte de sua cerimônia matrimonial, com votos em forma de composição e versos assumidamente apaixonados em um eterno conto de fadas. Uma música para atrair o público geral e que cativa pelo sentimentalismo.
“Orbit”, quarta faixa do intitulado Bass Persuades, se destaca como a maior composição do projeto — e arrisco dizer como uma das maiores de toda a sua carreira. Com versos cuidadosos e crus, Miley faz uma analogia de tempo/espaço para exemplificar perfeitamente a magnitude de seus sentimentos. Uma declaração de amor honesta, bonita e despida de firulas ao mesmo tempo que é acompanhada por uma base tímida de instrumentos de corda. Aqui a voz toma conta e divide protagonismo com a vertente compositora da Miley, que muitos parecem subestimar.
“Aftermath” te engana em uma daquelas surpresas que você fica obcecado. O que nos primeiros estrofes aparenta ser uma balada, momentos à frente tudo se transforma em um eterno subgênero das pistas eletrônicas que vai querer fazer você dançar freneticamente.
Aqui a Miley conversa sobre o que poderia ter sido. A composição agridoce te pega em determinados momentos como um soco de nostalgia sobre uma situação ou momento específico ao qual você não tem controle. A canção traz uma dezena de perguntas ao qual não teremos resposta, inclusive a Miley. A voz distorcida nos segundos finais enquanto indaga um pensamento final nada conclusivo, mostra a inquietude e o constante castigo de querer saber.
“REDLIGHTS” me transporta para um lugar muito específico e particular. Se eu fecho os olhos enquanto a canção entoa, sou transportado, quase que instantaneamente, para uma visão noturna dentro de um carro em movimento. A memória continua tomando forma enquanto minha imagem observa meu pai tomando a direção e o único som que podemos ouvir é o do rádio ligado com o locutor apresentando hits que, outrora, tomavam as ruas como febre. E essa é uma das nostalgias mais lindas que eu aceito deixar entrar.
Aqui é como se Miley tivesse um encontro intimista com o ABBA em seu auge. REDLIGHTS transmite o poder de uma canção que sobrevive ao tempo. Uma concepção perfeita de uma balada embasada no disco-music e um synth-pop tradicional clássico. Puro ouro em sua forma mais lapidada. Não à toa, se fez a favorita da própria.
“Neon Signs” trabalha o erotismo em sua melodia e, majoritariamente, em sua composição. Aqui o Andrew Wyatt — vocalista da Miike Snow e antigo produtor da Miley, sai dos bastidores e divide os versos em uma sintonia quase inteiramente falada como em uma hotline de dois amantes desesperados por um encontro íntimo. Aqui o amor se divide com o erotismo em versos picantes e gemidos paralelos que lembram uma versão muito melhor que Bad Karma, incluída em seu sétimo álbum de estúdio. Uma canção perfeita para criar um clima mais íntimo em uma companhia tarde da noite, como dito nas estrofes.
“Innocent Ways” entra no hall das canções feitas para sua irmã mais nova, Noah. E se em Thousand Miles (2023), pudemos presenciar uma linda carta aberta de carinho e cuidado embasado em uma melódica suave, Innocent Ways escancara os altos e baixos dessa relação. Quase como uma “Girl so confusing” do famoso Brat da Charli XCX (2024), Miley admite ressentimento, discordâncias e ego em uma relação de cuidado e proteção ao longo dos anos.
A batida progressiva produzida pelo Maxx Morando e Kid Harpoon, me lembra projetos da saudosa Rock Mafia que já atuou com a Miley no Can’t Be Tamed (2011). Esse fato, inclusive, me faz pensar que essa em questão cairia bem em uma repaginada deste mesmo projeto.
Das inúmeras baladas compostas no Bass Persuades, eu considero “Snow” a mais experimental e menos óbvia em sua produção. Quase como um clássico indie saído dos anos noventa, podemos ouvir uma experiência real da viagem ao Japão realizada pela própria Miley e Maxx Morando em um passado breve. Curioso que, o motivo desta mesma viagem, se deu ao fato da celebração matrimonial do Pollack e seu noivo. Pollack assume a produção.
Snow vem para fechar uma das inúmeras canções que Miley dedica ao seu relacionamento. Algo que ameaça ser uma eterna tradição em seus projetos futuros. Aqui torcemos para que mais experiências sejam vividas à dois a fim de gestar mais canções intimistas o suficiente.
Finalmente, “Bass Persuades Remixx” chega para finalizar a tracklist — pelo menos da versão standard. E aqui entra um sentimento inevitável de dúvida. Sendo completamente honesto e despido de qualquer fanatismo, ainda tento associar se uma closing track composta por um remix foi, de fato, uma ideia a ser admirada.
A faixa se mostra bem produzida, de fato. Mas não podemos desconsiderar o fato de que Bass Persuades nasce, sim, com uma quantidade tímida de canções. Dez no total. Fica a pergunta se não seria mais esperto a substituição desta, por uma exclusiva como “Smile”.
Ao fim da análise e opinião pessoal, considero o Bass Persuades um bom projeto. Havemos de admitir que a discografia da Miley amadurece em cada trabalho. Esse não foi diferente. É um álbum que serve bem como porta de entrada em uma longa jornada que a cantora terá na Atlantic Records, sua nova casa.
Se é um álbum que terá sua longevidade através do tempo? Algumas canções exemplificam que sim. Mas saberemos em um futuro não muito breve. O fato é que, essa nova década traz uma Miley mais aberta musicalmente e mais experimental. Por outro lado, o desejo que os fãs ficam, é que essa abertura também se estendesse ao seu relacionamento construído ao longo dos anos com sua comunidade. Afinal, esperança é a última que morre.
Nota final: 84/100 ⭐⭐⭐⭐⯪
Crítica e review por Allan Andrade (@oallandrade) para o Miley Cyrus Brasil
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