16.06.2015

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Entrevista: TIME
Tradução: Miley Cyrus Brasil

Não demora muito para obtermos um bocado de palavras de Miley Cyrus, que responde a todas as perguntas rapidamente. Ela dispara sobre memórias de jogos de futebol em Nashville, sobre sua postura de estrela pop e sobre como a América é obcecada por sexo tão rapidamente que algumas palavras são até difíceis de distinguir. (Exceto as gírias, que ela usa mais ou menos com a mesma frequência que os adolescentes usam emojis.) Ocasionalmente, ela relaxa, levando o foco de sua fala
arrastada com sotaque de Nashville para zombar dos políticos conservadores que estão em desacordo com a sua nova missão de justiça social: ensinar à América que ninguém decide o gênero de uma pessoa ao dizer se é uma menina ou um menino na sala de parto. Ela apoia as pessoas que precisam de ajuda em questões de gênero.

Cyrus se inclui entre as pessoas que não sentem que se encaixam nos padrões tradicionais, dizendo que ela não gosta dos rótulos “masculino” ou “feminino” ou mesmo “gênero fluído (pessoa que se identifica com ambos os gêneros)”, embora ela se encaixe no último, por ora. “Gosto de igualdade. Eu sou quem eu sou. Não tem nada a ver com quaisquer partes de mim ou como eu me visto ou como é minha aparência. É, literalmente, apenas como eu me sinto“, diz Cyrus durante uma pausa na sessão de fotos para a campanha da Happy Hippie, #InstaPride, em Los Angeles no mês passado. A campanha é uma parceria entre a Happy Hippie, fundação sem fins lucrativos dedicada a ajudar jovens sem-teto e LGBT, e o Instagram, que se comprometeu a divulgar imagens positivas de pessoas que não se encaixam em um gênero específico com suas famílias, que os amam.

Cyrus, vestindo um macacão amarelo que esconde suas curvas e mostra um pouco de sua pele, está falando sobre como ela tem sido sexualmente aberta há anos e sobre como se sentiu andrógina muito antes de ela ouviu a frase “gênero fluído”. Ela diz que ela era a pessoa que era referência para as outras adolescentes sexualmente confusas
quando morava em Nashville: “Todas queriam experimentar coisas novas. Eu sempre fui a única disposta.” Agora, quando ela chega em algum lugar vestindo quase nada e usando asas de borboleta, ela sabe que haverão críticos a ridicularizando por ter seus “peitos para fora”, como ela diz. Mas ela diz que continua fazendo isso para desafiar as pessoas: “Eu faço isso como se estivesse assumindo uma postura”, diz ela. “É engraçado ver as pessoas tentando me olhar nos olhos.

Como se fosse uma estudante universitária fazendo pesquisas sobre  gêneros e sexualidade para apresentar em um seminário, Cyrus está reciclando as experiências de sua juventude em busca de novas formas de compreensão. Muitas das pessoas que ela está fotografando na sessão de fotos do #InstaPride, fizeram viagens longas para vê-la, também. Greta Martela se assumiu como uma mulher transgênero já na
fase adulta, enquanto vivia como um pai solteiro de 44 anos. Tyler Ford, um amigo próximo de Ariana Grande, que cresceu com a estrela em Boca Raton, se assumiu como um homem transgênero antes que parasse de tomar testosterona e começou a identificar como sem-gênero – dando a entender que ele não tem gênero, afinal.

As pessoas tentam fazer com que todos sejam alguma coisa“, diz Cyrus. “Você tem que ser quem você quer ser.”

Ela está familiarizada com a sensação de quando as pessoas tentam fazer você parecer algo que não é. Antes de começar a fumar maconha, falar palavrões em público e decorar suas partes íntimas com tinta e fita adesiva para a Paper Magazine, ela se tornou famosa como uma estrela infantil na série do Disney Channel, “Hannah Montana”. Naquela época, seus fãs se escandalizaram quando Annie Leibovitz tirou uma foto dela com as costas expostas; Cyrus, então com 15 anos, disse que estava
“envergonhada” pela fotografia e pediu desculpas. Ela era uma menina representando um grupo de homens velhos e engravatados que diziam a
ela como uma estrela pop em ascensão precisava se vestir e agir. Cyrus se lembra de voltar de uma pausa nas gravações de Hannah Montana com aparelho nos dentes. “Eu tive que tirar imediatamente porque não ficava bem em mim“, diz ela. “Se isso acontecesse comigo hoje em dia, eu diria: ‘Foda-se. Adolescentes normais de 14 anos usam aparelho, então eu vou usar aparelho no programa, para que as adolescentes que usam aparelho na vida real saibam que está tudo bem.’ Mas eu não tinha isso em mente, na época. Eu estava vindo de Nashville, onde todas as mulheres são perfeitas. Eu não sabia.

Agora com 22 anos, Cyrus não está preocupada em ofender ninguém. “Outro dia me perguntaram se, pra fazer qualquer, coisa eu teria que consultar um conselheiro“, Diz ela. “Se eu tivesse alguém pra me dar conselhos, essa pessoa já teria sido demitida há dois anos.

E, quando Cyrus ofende alguém, ela não se apressa para se desculpar. Bristol Palin, filha da ex-governadora do Alasca, Sarah Palin, atacou Cyrus em seu blog em um post intitulado “Miley Cyrus diz que não julga os outros, mas chama os cristãos de idiotas malucos”. Palin se sentiu ofendida com os comentários de Miley incluídos na  entrevista à revista Paper Magazine, acusando Cyrus de ser de mente aberta somente para as pessoas que pensam como ela. Mas Cyrus diz que não é verdade.

A Happy Hippie e eu valorizamos, sobretudo, a aceitação. Não foi bem isso que eu quis dizer“, diz ela. “O que você diz está dito, e foi isso que eu quis dizer, mas esse não foi necessariamente o meu pensamento completo.” Ela diz que sempre haverão críticos, dando o exemplo de Caitlyn Jenner se assumindo como transgênero. Apesar de ter sido amplamente elogiada, uma contingência menor criticou a forma como a foto da capa da Vanity Fair perpetuou padrões cisgênero de beleza. “Você nunca vai conseguir que todo o mundo concorde com você”, diz Cyrus. “Essa é a importância de expressar a SUA verdade.”

Isso é o que Cyrus está fazendo agora, ao contar sobre como ela teve relações anteriores com homens e mulheres, e sobre ter um futuro que pode envolver um marido ou esposa, ou talvez ser uma mãe solteira por opção. Ela também reflete sobre como se sentia insatisfeita em relacionamentos passados, especialmente com as expectativas de como homens e mulheres devem agir.

Com homens, Cyrus diz, houve uma “energia excessivamente masculina” que ela não gostava. “Isso me fez sentir como se eu tivesse que ser uma mulherzinha, o que eu não sou. E então, quando eu estava com alguma menina, eu me sentia tipo: ‘Ela vai precisar de alguém para protegê-la, então eu vou ter que assumir uma postura mais masculina’. Também não me sentia bem assim.” Cyrus diz que foi jantar em um restaurante com seu ex-namorado no último Dia dos Namorados e começou a chorar, olhando para os casais heterossexuais mais velhos ao redor dela. “Todas as mulheres no restaurante foram com uns homens velhos e gordos, que estavam ali por obrigação. Eles estavam sendo uns bastardos embriagados. E, em contrapartida, as mulheres estavam sentadas ali, se esforçando tanto para parecerem belas. E os homens ignorando elas o tempo todo, sabe? Eu concluí que não posso viver assim“, diz ela. “Se eu acabar em um relacionamento hétero, tudo bem, mas eu não vou ficar com um cara que só fica assistindo pornografia, fazendo a namorada se sentir inferior.

Ela diz que seus sentimentos em relação a relacionamentos são graças a seus próprios pais, o cantor country, Billy Ray Cyrus, e Tish Cyrus. “Eu nem sempre associo homens e proteção necessariamente“, diz Cyrus. “Eu acho que isso foi o que me deu a abertura da sexualidade. Não que o meu pai não fosse um protetor impressionante, mas eu confio mais na minha mãe para me salvar. Ela é o príncipe. Não sou muito o tipo de garota de conto de fadas.” Ela lembra sobre como chorava na época que era adolescente, pois era forçada a sair de casa e ficar na frente do público enquanto enfrentava problemas com acne. Agora ela diz que está muito menos preocupada com o superficial. “Trepar é fácil. Posso encontrar alguém para fazer sexo em cinco segundos“, diz ela. “Quero encontrar alguém com quem possa conversar e ser eu mesma. É raro achar alguém assim.

As redes sociais ainda podem fazê-la estremecer e duvidar de si mesma, um sentimento com o qual a maioria das jovens provavelmente irá se identificar. “Toda vez que você posta uma foto nova, você pode ganhar 3.000 comentários incríveis e então você ganha 1 comentário de merda e isso acaba contigo“, diz ela. “Comigo é a mesma coisa. Eu posto minha arte e todo mundo pode dizer que é ótimo, mas então alguns filhos da puta vêm e me dizem umas coisas e eu fico tipo: ‘Bem, talvez eu seja mesmo uma bosta’. Isso fica na sua cabeça.” Cyrus vê meninas fazendo biquinho nas fotos só pra ganhar curtidas nas redes sociais e quer ser um exemplo pra essa galera também. Um público que inclui sua irmã mais nova, adolescente. “É tão ruim. Você olha pro Instagram e você pensa ‘Ah, eu não sou assim’. E isso faz você se sentir mal. Você começa a descer a página e você vê todas essas pessoas perfeitas do jeito que você nunca vai ser… eles têm tantos seguidores e tantos amigos“, diz ela. Daí vem a campanha #InstaPride: “É por isso que nós quisemos fazer essa campanha através Instagram. As curtidas vão pra fotos que são reais.

Cyrus está fazendo de tudo para ajudar as pessoas a terem autoconfiança, às vezes chegando a fãs individuais através do Twitter. Uma garota ganhou uma ajudinha de Cyrus porque havia sido repreendida por usar uma camiseta escrito “Legalize Gay” na escola, de modo que Cyrus entrou em contato com a escola e enviou à menina todas as cores disponíveis da mesma camiseta. Ainda assim, ela diz que sente certa insegurança ao dizer aos jovens para serem eles mesmos, porque ela sabe que não é tão fácil para todos como é para ela. Um jovem transgênero que se assume para seus pais pode muito bem acabar na rua. “Espero que mais jovens façam o que eu fiz e, depois, não tenham que se sentar em seu quarto e chorar, pensando: “Eu não sei o que eu tenho que ser’“, diz ela. “Mas quando eu digo aos adolescentes que, às vezes, basta ser você mesmo, eu quero dizer: ‘Espero que você consiga. Será que você consege?’

Cyrus parece atraída pela comunidade LGBT, em parte, por conta da solidariedade que é abundante lá. Recentemente, ela foi para a final do reality show Ru Paul’s Drag Race, e disse que não fica particularmente interessada em assistir premiações de celebridades, mesmo se for uma boa oportunidade para enviar um jovem sem-teto ao palco para um discurso inspirador. Ela prefere o apoio incondicional que as participantes de RuPaul’s deram umas às outras quando se apresentavam. “Beyoncé nunca aplaudiria Katy Perry na primeira fileira” diz ela. Talvez porque, ao contrário de pessoas que estão acostumadas a se assumirem, estrelas pop muitas vezes têm que fingir ser algo que não são. Isso não é algo que Cyrus está disposta a fazer mais, mesmo ainda tentando descobrir quem é.

Você deve comemorar quando você está, finalmente, descobrindo quem você é“, diz ela, cercada por novos amigos de diferentes gêneros, em Hollywood. “Tipo, viva a sua vida, porra!


Publicada por: Miley Cyrus Brasil
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