15.08.2021

Na primeira semana de agosto, o serviço de streaming PeacockTV lançou o mais novo talkshow “Hart To Heart” estrelado por Kevin Hart, onde o ator convida diversos artistas premiados que se sentam ao seu lado para beber um pouco de vinho e deixar a conversa fluir.

Em seu primeiro episódio, Hart conta com a presença de Miley Cyrus que abre o jogo sobre sua dificuldade de diferenciar a vida real e ficção quando estrelou a série “Hannah Montana“, além os efeitos psicológicos que teve ao trabalhar desde os 12 anos de idade.

Confira a tradução e adaptação da entrevista feita por Thayná Araújo, Lara Moraes e Amanda Dantas da equipe Miley Cyrus Brasil.

Kevin Hart: Pessoal, nós temos algo único hoje. Por que digo isso? Bem, porque é isso que esses shows são, algo único. Eles são únicos porque os convidados são incríveis, e o show/episódio de hoje não será diferente. Minha convidada é uma artista, cantora e atriz indicada ao Grammy, vencedora da Billboard e MTV Video Music Awards. Ela é o que gosto de chamar de ameaça tripla. Estou honrado em recebê-la aqui hoje para o que eu chamaria de minha primeira vez, o que torna isso muito emocionante. Miley Cyrus, como você está?

Miley Cyrus: Olá! Como você está, Kevin?

K: Como você está? Kevin Hart, prazer. Miley, antes de tudo eu tenho que descrever para você o que é isso. Eu gosto do fato de estar correndo um grande risco ao fazer algo que não tenha sido feito antes, sabe? Normalmente nós vamos em programas de entrevistas e nós sabemos o que vai acontecer. Sabemos as perguntas que vão perguntar, sabemos como vai ser a conversa, sabemos como tudo vai ser. Eu estou correndo um risco. Não quero falar como antes, quero poder encontrar pessoas, poder conhecer essas pessoas. 

M: Correr risco? Essa é meio que minha especialidade. 

K: Essa é sua especialidade? Então, é sobre isso que é. Somos nós dois conversando pela primeira vez. Estamos fazendo isso aqui, e esse é um trocadilho intencional. Nós vamos ter um “Hart to Heart”. Miley,  eu também acredito que devemos beber vinho. Eu acho que as conversas se tornam muito melhores quando tem vinho envolvido. Espero que você goste de vinho, porque é isso que temos aqui.  

M: Sim, por favor!

K: Eu tenho um sommelier. Esse é o meu sommelier. 

M: Oi, como você está? 

DLynn: Sra. Miley Cyrus, como você está?

M: Eu estou ótima. Qual é o seu nome?

DLynn: Meu nome é DLynn. Feliz em te servir esse vinho incrível e em te conhecer também.

M: Prazer em te conhecer!

K: O que temos hoje?

DLynn: Vinho de 2015, com um pouco de idade nele. 

M: Incrível! Eu realmente te respeito. O trabalho e o tempo que leva para se tornar um sommelier, eu assisti um documentário sobre isso e é tão intenso! Tem muito propósito e a sua vida é tão dedicada a esse trabalho. Eu respeito muito isso!

DLynn: Muito obrigado! Obrigado gentilmente. Você vai absolutamente gostar disso. 

K: Então saúde! Saúde para nós dois e por uma ótima conversa e diálogo. Eu agradeço por estar fazendo isso, é muito legal.

M: Obrigada! Essa taça é maior que o meu rosto. Isso é ótimo! 

K: Então, Miley, por onde começamos? Antes de tudo, eu acho que devo te dar flores. Tenho um tremendo respeito por você e pelo seu sucesso. Sua história, de onde você veio, onde você está agora…Eu me curvo perante pessoas na indústria do entretenimento que fizeram muito e continuam fazendo. Eu sei que é uma tarefa difícil, não é fácil.

M: Sim, e você sabe… Porra! Eu esqueci que meu microfone está na minha jaqueta. Desculpe! 

K: Você já tem que ficar confortável. 

M: Isso mostra o quanto eu sou um desastre em encontros. Tomei um gole de vinho e já estou tirando minha jaqueta! Eu sou conhecida por muitas coisas, mas minha classe não é sempre uma delas. 

K: Bom, nós vamos entrar nisso. E eu não concordo, é uma delas sim. Tem que ser uma delas porque…

M: Auto depreciação também é uma dessas coisas, sabe o que quero dizer? Eu tenho um pouco de classe, mas também gosto de dar um show. Eu sei o que as pessoas gostam de ver, sei o que não gostam de ver e aí eles falam sobre isso por um longo período de tempo. Isso, às vezes, trabalha ao meu favor.

K: Então, quero começar pelo começo porque tem muita coisa que eu sei e muita que não sei, certo? O mundo da Disney e o sucesso que você teve nesse espaço é algo surreal, monumental. Quando você teve seu show…eu quero saber como isso aconteceu. Tipo, qual foi o caminho para chegar lá primeiro, antes de chegarmos aonde você está agora. Fale para mim sobre os estágios iniciais. Como você consegue o show que você teve?

M: Bem, é meio que uma história engraçada. Eu fui escalada para “Hannah Montana” porque eu tinha 12 anos. Algumas garotas que eu conhecia e que iam para escola comigo, que estavam no mesmo grupo de líderes de torcida…elas estavam indo para L.A para uma audição na Disney e eu implorei para minha mãe me deixar ir com elas. Então eu atravessei o país e minha mãe não quis voar porque ela morre de medo, então nós dirigimos por três dias de Nashville até a Califórnia. Estavam minha mãe, minha avó, minhas amigas…e a história é a seguinte, eu fui com eles e acabei sendo chamada de volta. Nenhuma delas foram chamadas de volta, então elas não ficaram muito felizes que eu tinha ido com elas na viagem. 

K: Isso afetou a amizade de vocês?

M: Eu naquele momento já estava sofrendo bullying e não estava sentindo que eu me encaixava. As comunidades de arte e criatividade que me cercavam em Nashville não eram muito fortes, então eu acho que muitas pessoas estavam mais okay em se encaixar naquilo e eu sempre quis me destacar, ser diferente e ser confrontacional. Eu acho que eu apenas não me encaixava na cidade pequena em que eu estava, então isso afetou minhas amizades mas acho que era inevitável que eu ia crescer e superar a minha cidade em algum ponto, especialmente por causa das minhas visões políticas e religiosas. Meu avô era um legislador democrata do estado, então sempre fomos meio que sem reservas e isso afetou minhas amizades. 

K: Qual é o nome da cidade?

M: Nashville, Tennessee. Mas eu sou de uma área pequena chamada Thompson´s Station onde meu pai ainda vive na mesma fazenda que eu cresci. São 500 acres cercados de apenas terra.

K: Quando você fala sobre crescer e superar a cidade pequena, ainda há amor? Existe um relacionamento de amor e ódio? Existe só ódio? Como é sua relação com Thompson?

M: Não, eu não tenho muito ódio no meu coração por quase nada. Mas então, fui com minhas amigas para Califórnia, fiz minha audição, fui chamada de volta e minha mãe ainda não quis voar, então dirigimos novamente para Califórnia para outra audição. 

K: Então vocês dirigiram duas vezes?

M: Dirigimos tantas vezes de Nashville para Califórnia por causa da minha mãe, e eu tenho cinco irmãos e irmãs, então nós nos esprememos no carro com todos os nossos cachorros. Exceto quando minha avó, que descanse em paz, me levava porque ela me deixava beber Pepsi e eu já estava super animada porque não tinha permissão de ter nada disso. Quando eu sentei no avião foi a primeira coisa que eu fiz. Se eles me dessem um IV na veia disso eu teria tomado. Eu bebi muita Pepsi. Então minha avó descia, nós íamos ao píer..eu passei muito tempo com minha avó, tenho ela tatuada no meu braço. Ela tinha um fan clube que ela comandava da minha pequena cozinha ao lado do meu camarim durante toda a minha infância. Ela assinava todas as fotos, a não ser que ela gostasse da foto que tinha sido tirada de mim, aí ela guardava, emoldurava e colocava na casa dela. 

K: Então, aqui está a pergunta, certo? Porque essa é a parte em que estou mais curioso. Você disse que teve muitas idas e voltas para audição e coisas do tipo, mas aí você conseguiu o show e o show acabou se tornando o hit e sucesso que é.

M: Bom, na verdade eles contrataram outra pessoa. Eles não me contrataram porque…eu fui chamada de volta para a audição várias vezes, mas aí eles disseram que eu era muito pequena e muito nova. Eu literalmente só tinha 4 dentes. Eu sou de Nashville então isso é comum por lá, mas eu realmente só tinha 4 dentes e nesses 4 dentes tinham aparelho. Eles eram transparentes porque minha mãe disse que ninguém queria a Hannah Montada de aparelho colorido, mas depois de todas as Pepsi que eu tomava com minha avó o aparelho estava marrom. Eu lembro de ter voltado e eles olharam pra mim tipo “o que aconteceu?”. Crianças mudam muito, então toda vez que eu voltava algo tinha mudado em mim. Podia ser uma acne, porque eu estava crescendo… continua ficando pior, então eles contrataram outra pessoa, filmaram o episódio piloto, mostraram para várias crianças e…

K: Por quanto tempo você teve audições?

M: Eu tinha 10 anos e pouco, e só consegui o papel com 12 anos, então foi durante dois anos e meio. 

K: Dois anos de audição? Miley, você tá brincando?

M: Sim, dois anos de audição e sem conseguir o papel. Aí eles mostraram esse piloto para as crianças, porque eles fazem esses tipos de coisas para ver se as crianças gostam e se relacionam com o personagem.

K: Então o show ficou em desenvolvimento por 2 anos e meio?

M: Sim, então eu tinha certeza que tinha conseguido o papel. Então eu comecei a fazer bagunça na minha escola porque pensei que nunca teria que voltar lá. Então finalmente eu pensei “quer saber? eu vou ficar doida”. Eu tinha tipo, 6 namorados, e eu comecei a descobrir tudo isso, mas ai eles não me escolheram e eu estava presa, eu tinha jogado todo mundo contra mim. A esse ponto eu basicamente estava tentando ficar com todo mundo da minha escola, e eu lembro que uma vez eu fui ao Canadá e alguém tinha me falado sobre o que era beijo francês. Então eu volto para a escola e conto para todos da classe “Adivinhem o que eu aprendi no Canadá”, e eu percebi que os professores estavam tipo “Ah, isso é ótimo. O que você aprendeu viajando para fora do país?” e eu disse “Eu aprendi o beijo francês”, e aí eu queria mostrar isso para a garota da minha sala e ela topou, então eu fui para a suspensão da escola onde eles me colocaram em – eu não sei se é permitido humilhar crianças na escola mais – mas eles me colocaram em uma sala de vidro na suspensão, então eu tenho recorde de ser a criança mais nova a ter sido suspensa na minha escola. 

K: A propósito, você está orgulhosa?

M: Sim!

K: Quando você fala…. Tudo bem, tem um rebelde um você. Tem essa coisa que você tem. E você tem ciência  disso. Você não é cega sobre ele. Você fica tipo, “Olha, eu era uma criança rebelde. Eu era uma criança má. Nesse ponto, eu estava fazendo X, Y, Z”. De onde você acha que isso veio?

M: Hm…. Provavelmente da mãe do meu pai. Que basicamente apenas viveu. Vou deixar assim “ela só viveu”. E ela dirige um cortador de grama como se fosse um carro, porque ela é proibida de dirigir porque ela teve muitos … ela gosta de beber um pouco de álcool.

K: Sim, ela teve alguns problemas

M: Então eles tiraram a carteira dela e ela disse “você não precisa de carteira para dirigir um cortador de grama”. Então ela leva o cortador para todo lugar. Ela normalmente usa uma bermuda branca, que ninguém gostaria de ver a sua avó usando, mas eu a amo. E ela usa uns sapatos do Looney Tunes e usa um cortador de grama como um veículo.

K: Mas você não poderia estar mais feliz.

M: Sim, e ela tem o cabelo todo branco e sobrancelhas vermelhas que nem fogo e ela só usa o mesmo esmalte a vida toda, que se chama “periwinkle”. E uma coisa que foi muito boa durante a quarentena foi passar um grande tempo com a minha família e eu aprendi muitas coisas. Tipo, eu nunca percebi o esmalte “periwinkle”, e tinha toda uma história por trás. Eu acho que muitos de nós mantinham-se distantes, mas nós nos isolamos em uma fazenda que meu pai. O meu pai tem se mantido isolado nessa fazenda desde 1992 e ele olhava para nós tipo “isso não é legal? Eu falei para voces”. Meu pai tem se distanciado, isolado e em quarentena.

K: Uma vida de quarentena por um longo tempo.

M: Sim.

K: Então você conseguiu entrar no programa, e a rebelde que esteve uma vez aqui em Tennessee, bom… você não pode apresentar isso para eles.

M: Sim, mas mesmo sendo uma rebelde, eu também nunca fiz nada, até mesmo quando criança, com o intuito de machucar alguém. Entao a minha rebeldia, menos os garotos, foda-se os garotos, esses meninos mereciam. 

K: Mas não eram todos os garotos

M: Oh, era uma coisa toda. Bem, um deles me contou que tinha rumores, que agora eu vejo como um elogio, que falava que ele só queria ser o meu namorado porque ele sabia que um dia eu seria uma grande estrela. Mas eu nem sabia. Porque eu sempre tive uma voz mais baixa, rouca, e a minha professora de teatro só iria me chamar para fazer papel de idoso, eu sempre era o pescador com duas falas em que eu falava “olá” ou “bem vindos ao meu navio”.Ou alguma coisa estranha. Ela sempre me fazia o homem velho e cabeludo em toda peça que fazíamos. O filho dela foi um dos namorados que eu estava traindo, então eu me vinguei.

K: Novidade para você, quem riu por último?

M: Sim, eu consegui minha vingança. Mas, enfim, ninguém sabia realmente que eu iria fazer alguma coisa porque ela (professora) nunca me deixou brilhar. Exceto por uma peça, em que todos puderam escrever seu próprio monólogo, e eu escrevi um sobre metamorfose, tipo se desenvolvendo de uma lagarta para uma borboleta. E eu entrei vestida como borboleta e tudo mais, e todo mundo começou a chorar porque não era sobre as borboletas, mas era sobre todo mundo que eu podia ver e ver o potencial da minha classe.

K: Wow, eu achei que iria falar que era sobre você.

M: Tipo, era sobre mim, mas eu também senti…. Uma coisa que é muito importante para mim é ajudar outras pessoas a encontrarem seu potencial máximo, mas isso é uma coisa na minha vida adulta que eu também tive que separar porque às vezes você consegue ver uma coisa em alguém que ela não consegue sempre ver em si mesmas. Então isso pode ser bem frustrante e você tem que vir de um lugar de amor e suporte, mas não em um lugar de “bem, olha o que eu fiz, se você seguir…”. Todo mundo vai encontrar seu próprio lugar no tempo certo.

K: Eu acabei de ter essa mesma conversa há duas semanas atrás.

M: Com quem?

K: Eu juro por Deus. Eu tive a mesma conversa com o Will Smith duas semanas atrás e ele estava conversando comigo sobre dar conselhos, e como ele agora aprendeu que o modo que ele dava conselhos vinha de uma perspectiva arrogante e pretensiosa. Ele me falou “Eu basicamente estava dando um conselho para falar “é assim que eu fiz”, e agora você pode fazer isso tambem”, que resumidamente é “você consegue fazer isso e se tornar eu”. E quando ele disse isso, uma lâmpada se desligou de mim, e na hora eu pensei “caramba”. Eu sou culpado pela mesma coisa. Nós tivemos uma conversa real e é tudo informação agora.

M: Eu acho que viver sem expectativas e sabendo que ninguém deve nada a você, isso tem sido algo que mudou o jeito que eu sou capaz de expressar a minha compaixão. Quer dizer, eu vivi muitas vidas. Nós todos vivemos. Todo mundo vive nesses capítulos, e as vezes, quando você olha para uma pessoa que você já foi, parece que você está olhando para alguém que você não conhece de maneira alguma, porque minha vida é muito … eu não consigo acreditar que é minha mesmo. Eu realmente acredito que eu sou uma das pessoas mais sortudas. Eu estou sentada com você em um castelo, bebendo vinho e rindo. Todo mundo aqui é incrível por colocar tudo isso junto e eu consigo falar sobre a minha vida e a minha vida, eu não acredito que ela é minha. Eu me sinto muito sortuda. Então eu tenho dificuldade de admitir que eu talvez precise de ajuda para balancear alguma coisa porque estou sobrecarregada porque me sinto culpada de estar sobrecarregada. Porque como eu posso, por um segundo, sentir um pouco de dor ou medo. Quase como se eu não merecesse, mas eu também tenho me tornado mais fluida e flexível e muito menos concretizada em meu próprio senso, e eu não tenho o senso definido de quem eu sou.

K: Você disse que as vezes sente culpa por ter essa vida, todas essas coisas. Eu me pergunto por que você sente isso, quando.. claro, há um pouco de sorte, mas você trabalhou duro.

M: Quando nós começamos essa conversa, você disse “Estou interessado em conversar com pessoas que começaram do nada e agora fazem sucesso”, e eu tive um momento difícil processando isso, porque meu cérebro pensou “Você não sabe o que é isso”.

K: Por que? 

M: Eu estou trabalhando nisso… Porque eu sinto que eu.. Se eu tirasse um momento para reprogramar, o que estou fazendo agora, para ter um momento de gratidão que diz, minha mãe me colocava no carro e dirigia por três dias atravessando o país, e todos os meus irmãos tinham que acompanhar. Eu tive que sair da escola, deixar meus amigos, e todos os meus irmãos tiveram que fazer o mesmo para que a irmã deles pudesse seguir seu sonho, e meu pai ficava “Nós vamos para a California!” e ao mesmo tempo “Eu não vou deixar essa fazenda”. Ele me dizia que eu teria várias portas fechadas para mim, muita pressão, e eu acho que isso era apenas ele tentando me proteger. Eu acho que seu eu tirar um momento para entender que você está apenas me parabenizando por trabalhar duro e isso significa muito. Mas também, acima disso, a verdade milagrosa que minha família, de todas as famílias que eu poderia ter, é a que eu tenho. Um pai que.. nossa jukebox era cheia de cantoras de rock, blues. Eu odiava Etta James quando Hannah Montana acabou porque meu pai tocava todos os dias, e Stevie Nicks, e.. você sabe, meu pai celebrava mulheres, acho que é por isso que eu sei exatamente o que eu quero. Meu pai é canhoto e ele me fez tocar guitarra do lado contrário minha vida toda, mas isso é muito a gente. E também minha mãe, qualquer coisa que eu quisesse tentar, ela nunca me julgou, ela sempre foi muito dedicada a seus filhos, e sempre fez igualmente para todos os cinco. Meus irmãos sempre foram tão altruístas que se eu tirasse um momento para sentir apenas gratidão, isso teria mudado toda a conversa.

K: Eu não sou um terapeuta, mas te ouvindo eu posso perceber que tem bastante trabalho no seu interior. Não sou um cara muito ligado no lado espiritual, eu acredito que estrelas podem ser escolhidas.. você pode ter sido escolhida. 

M: Eu sinto que meus esforços e minha dedicação foram o que me colocaram na posição que eu estou ultimamente, e o que me mantém aqui. Quando nós falamos daquela rebelião, eu penso muito na rebelião, na verdade eu sinto como se eu não estivesse apta, porque eu estava muito fechada, agora eu sinto que eu posso articular melhor do que eu podia quando começamos, a rebelião também vinha como uma forma de entretenimento para minha classe e para meus amigos, quer dizer, quando eu era quem eu era, é engraçado porque a gente falou bastante sobre evolução, quem eu sou agora sentada nessa cadeira é quase exatamente a mesma pessoa que estava sentada na cadeira daquela sala de aula cuspindo as notas, mas também muito maior, eu também estou muito diferente e pra mim, porque tinha muito foco em quem eu sou, quem eu era naquele tempo, que era um personagem e de novo, muito dos meus valores como ser humano foram contabilizados por aquilo, sabe, pela Hannah Montana e aquela identidade. Eu fui chamada para o elenco com 12 anos de idade, e essa é obviamente a parte mais esponjosa e absorvente da sua vida, é um tempo de se descobrir, e tinha tanta coisa acontecendo e mudando e eu tenho 5 irmãos e eles estavam crescendo e nós estávamos descobrindo nossa dinâmica, e o conceito do show era que eu ia mudar minha imagem, colocar uma peruca, colocar coisas brilhantes, eu tinha outros valores e isso foi para minha vida real, foi muito louco ser Hannah Montana, agora eu tenho tempos difíceis lembrando exatamente como sentia, mas sabe, o jeito que as pessoas reagiram à Hannah Montana versus quando eu era eu mesma e conhecia os fãs, era diferente, e nesse nível psicológico eu acho que é porque, originalmente quando eu comecei a fazer projetos solos com minha própria identidade eu quase criei tipos diferentes de egos de mim mesma, porque, meu nome Miley, meu nome era Miley no programa também, que não era no começo, quando meus amigos de Nashville estavam indo na audição, obviamente o nome não era Miley, mas eu incorporei tanto o personagem que os escritores acharam que faria sentido para a Hannah ser Miley pelo tanto que eu realmente era o personagem e aquilo não parecia um personagem e eu só disse “ok, alguém me disse que eu sou a Hannah Montana então agora eu sou a Hannah Montana”, e tudo que eu criei pra ela, é além de métodos, porque eu estava crescendo como ela, ela era eu e não tinha divisão entre a gente, era quem eu era, teve um hannaversário de 15 anos e foi os 15 anos do meu programa estar no ar e eu passei o dia pensando ‘o que eu quero fazer nos meus próximos 15 anos?’ foi nisso que eu dediquei meu dia, e normalmente, eu não sentiria que eu estava fazendo o suficiente se eu não estivesse falando com os fãs, criando, mas eu pensei “esse dia é maior do que um aniversa…” esse dia é quase um aniversário pra mim, e a gente estava falando sobre espiritualidade, e eu senti que naquele dia eu precisava e eu escrevi uma carta para a Hannah Montana e era sobre minha gratidão ao personagem.

K: Isso foi algo sugerido ou algo que você fez?

M: Não, eu pensei nisso, eu não acho que alguém poderia me dizer para fazer isso porque muitas pessoas que estão perto de mim agora não estavam com minha mãe e eu nos 3 dias de viagem no carro, sabe? Então quando eu escrevi essa carta eu estava capaz de ter paz com isso e a palavra “paz” é a palavra chave na história quando eu pensei “o que eu quero fazer nos próximos 15 anos?” porque eu sabia, quando eu estava naquele carro, dirigindo 3 dias para Califórnia, o que eu queria que esses próximos 15 anos se parecessem, eu sabia o que eu queria, então eu fui capaz de atingir porque tudo que eu fazia eu sabia se eu estava dando um passo à frente ou um passo para trás, porque eu sabia meu destino e quando você tem clareza e sabe o que você quer, você é capaz de fazer cada dia contar. Então eu realmente passei o aniversário pensando no que eu queria e é meio vago, mas era tudo sobre “eu queria encontrar a paz”. Do jeito que as pessoas se sentem que renasceram ou que foram salvas eu me sinto assim há 6 semanas, eu acho que tudo mudou para mim 6 semanas atrás. 

M: Minha mãe também era incrível. Ela arquivou e salvou tudo, todas as minhas programações. Seis dias atrás eu achei um cronograma de uma das primeiras vezes que eu viajei para promover “Hannah Montana”, e eu provavelmente tinha 12 anos de idade, e estavamos indo para Europa. Eles até colocaram “horário do cochilo” na programação porque eu era uma criança e quando eu olhei para aquilo eu senti uma armadura aparecendo, para proteger meu eu inocente que ainda vive porque quando eu olhei para aquele cronograma eu fiquei chateada. Eu senti que não estava considerando meus interesses. Eu não acho que ninguém fez algo intencionalmente para me abusar na questão do trabalho, porque eu realmente queria fazer aquilo, mas se você olhar para aquela programação hoje em dia eu acho que você ficaria em choque. Era chocante. Era: pousar, arrumar-se na limousine, fazer entrevistas ao mesmo tempo, ir para o hotel, incorporar a Hannah, fazer um show, ir para o estúdio, tudo isso com 20 minutos para comer e descansar, e nós sabemos que você não pode comer e cochilar em 20 minutos.
Quando eu olhei para aquilo, um dos meus membros da equipe me perguntou “Como isso te faz sentir?”, minha reação imediata foi entender por que eu sou como eu sou. Era como o Will Smith, sabe? Se você não olhar para esse cronograma e souber que é isso o que precisa ser feito.. aquele não era um local de ego, era um local de dor. Eu acho que, como uma criança, não sinto que aquilo era o melhor para mim, então olhar para aquele cronograma com o meu ego de lado e pensar que aquilo me machucou, eu mandei uma mensagem que dizia “Me desculpa, eu explodi naquele momento”, porque era mais fácil sentir raiva do que sentir um pouco de dor com aquilo. Também estava escrito no início da programação “Nós achamos que, se essa semana sair como planejado, será um grande sucesso” e basicamente não tinha importância de dormir e comer, o que me ensinou que se você quer fazer sucesso, você não pode comer nem dormir.

K: Eu posso quase te prometer que estúdios e produtoras escutando essa conversa verdadeira e ouvindo o impacto disso que você disse sobre o excesso de trabalho em uma jovem adulta em qualquer momento em sua vida podem pensar “Oh, nós podemos fazer melhor do que isso, certo?”. Essa conversa coloca pressão nas pessoas que estão no comando nesses momentos e lugares para entender que podem pensar melhor em um momento que pode não ter sido malicioso nem com a intenção errada, porque todos estão tentando se apressar para trabalhar e ter objetivos, com o pensamento de “é assim que devemos fazer” para que isso ocorra, o que está tudo bem, não estou condenando isso. Estou dizendo que você está trazendo algo que faz as pessoas serem mais cuidadosas, sabe? E não poderia ser um momento melhor, porque é o que está acontecendo agora, as pessoas estão tornando-se mais cuidadosas. Cuidadosas com suas palavras, com o impacto que elas podem ter, cuidadosas com a aceitação, cuidadosas com igualdade, cuidadosas com as diferenças entre as pessoas e com compaixão, que tem espaço para descanso, para a mente e para si mesmo.

M: O que estamos conversando se encaixa para qualquer pessoa. Todo mundo trabalha tão duro para manter um estilo de vida e tomar conta de si mesmo, todos trabalham tanto que chegamos à importância da criatividade, importância do tempo em família. Eu acho que provavelmente uma das melhores e piores coisas que aconteceu conosco foi ter nossos telefones basicamente criando um escritório para nós o tempo todo, se você está indisponível e ninguém consegue te achar às 2:00 da manhã, então você não é dedicado, você não liga. E, honestamente, as pessoas perdem seus empregos se não querem viver com esse tipo de pressão. Se você valoriza tempo em família, finais de semana, então isso deve significar que você não está tentando o suficiente e você não merece o sucesso, e isso será dado à outra pessoa que está disposta a lidar com tudo isso.. e eu não posso mais ser essa pessoa.

M: Eu lembro quando Justin Bieber lançou seu filme 3D e fui convidada para a premiere. Sua mãe veio conversar comigo e disse “Tem algum conselho que você quer dar para o Justin?” e eu disse “Se você puder tocar o lado da sua cabeça e quase apertar gravando para momentos que você quer lembrar, porque eu não lembro.” Eu tinha provavelmente 17/18 anos e eu disse “Quero que você lembre disso”. Você tem várias pessoas vindo assistir o filme 3D dessa criança que estava colocando vídeos no Youtube a dois anos atrás e eu não sabia como seria a carreira dele ou quanto tempo duraria.. eu não sabia sobre a minha própria, então eu só disse “Quero que você lembre. Se você tentar gravar momentos como esse em sua cabeça ou escrevê-los em algum lugar, tirar um momento para sentir o cheiro desse cinema, apenas lembre-se.” Porque eu não me lembro.

K: Eu tenho um borrão de alguns períodos. Eu me recordo de momentos grandes, mas tenho um borrão de alguns entre eles. Eu consigo me relacionar totalmente com o que você está dizendo. O que isso representa para você? Seja sincera. Essa conversa. Nós.

M: Essa conversa, para mim.. Eu acho que eu me senti desconexa da minha comunidade criativa por um longo tempo, e eu estava tendo uma experiência extracorpórea quando sentei nessa cadeira. Eu não estava realmente aqui, eu estava no meu modo robô, não estava aqui para ter uma conversa com você, e eu provavelmente perderia algo. Eu deveria saber que várias outras pessoas como você e eu estão passando pela mesma coisa que acabamos de conversar, e eu deveria perguntar se eles estão bem, se precisam de um amigo ou se apenas querem conversar sobre. É realmente legal da sua parte fazer isso.

K: Concluindo, eu vou dizer algo para você e eu realmente sinto isso. Eu nunca conheci Miley Cyrus, eu não te conheço, nós não temos um relacionamento. O propósito por trás disso tudo é ter conversas reais com pessoas reais, certo? Pessoas que têm essa plataforma enorme que você acha que conhece, mas não conhece. Através de uma conversa real que não foi programada, coisas vão aparecendo, conversas vão aparecendo, e com isso você pode sair com uma ideia diferente, não somente a platéia como eu mesmo. Eu quero genuinamente conhecer as pessoas que eu estou conversando. Depois de conversar com você hoje, você brilhou uma luz sobre coisas que eu vivenciei. Quando você fala sobre sua vida, você não tem ideia de quantas pessoas compartilham disso. No mundo espiritual, eu vou terminar isso dizendo algo que me atingiu enquanto conversamos. Nós assumimos muito sobre as outras pessoas, e a razão para isso é porque não tiramos um tempo para realmente conversar e entender. Estou indo embora dessa conversa com um entendimento sobre quem você é: uma pessoa incrível. E agora sou seu fã e amigo.

M: Eu realmente gostei muito, obrigada! Te amo com todo o meu coração.


Publicada por: Lívia Bastos

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