20.10.2021

O “Músicos sobre Músicos” da Rolling Stone, é a franquia anual em que dois grandes artistas se juntam para uma conversa livre e franca sobre vida e música.

Confira abaixo a matéria completa traduzida!

Até pelo seu próprio padrão, Miley Cyrus fez algo surpreendente quando gravou seu especial para o Mês do Orgulho nesse verão. Ao invés de alistar seus colegas estrelas do pop, ela foi para a sua cidade natal, Nashville, no meio do Cinturão Bíblico, e juntou um grupo de cantores country sem medo de desafiar o status quo. Mickey Guyton foi um deles, se juntando a Cyrus no palco do Ryman Auditorium para entregar uma mensagem musical de amor, aceitação e orgulho gay.

“Foi uma semana muito louca na música country”, Cyrus diz na sua ligação para Guyton pelo Zoom de sua casa em L.A.

O dueto de Cyrus com Guyton – uma sibilante versão de “Heart of Glass” do Blondie – se tornou um ato de perseverança no Ryman. Cyrus está forçando seu caminho para o rock, tradicionalmente dominado pelos homens, enquanto Guyton, que é uma das poucas mulheres negras assinadas em uma grande gravadora de Nashville, está batendo na porta de um gênero que tem sistematicamente tentado a deixar de fora. 

“Eu quero trazer tantas mulheres negras para a música country que a música country não vai saber o que fazer com elas”, diz Guyton, que lançou seu álbum de debut, Remember Her Name, em setembro. “Estou tentando acabar com esse sistema de nepotismo”.

Miley Cyrus: A parte mais frustrante de ser entrevistada é que você raramente consegue falar sobre o seu projeto, especialmente se você for alguém em que o que você representa pode acabar se tornando maior que os seus talentos, de certo modo. Porque eu falo sobre meu pioneirismo, meu atrevimento, minha coragem, minha bandeira louca que eu balanço sem vergonha, todos os dias. Eu queria falar mais sobre o seu álbum. Fale sobre ele, o que é mais importante?

Mickey Guyton: E eu quero focar em apreciar você. O jeito que você é com as pessoas, e sua voz. Deixa a gente falar sobre a voz! Você é um camaleão.

Cyrus: Obrigada. E foi isso que eu quis dizer sobre focar no seu álbum e no seu som. Meu pai sempre diz, “Não pense fora da caixa porque não existe uma caixa”. A consciência sobre a caixa que você não está só deixa a caixa viva e respirando. Para mim, principalmente sendo alguém que é conhecida por ser controversa, quando existe uma linha e eu a cruzo, eu não foco nisso – porque agora estamos focando mais na linha do que na ação.

Guyton: O que é a linha? É verdade.

Cyrus: Exatamente. A linha é feita por outras pessoas.

Guyton: A definição de loucura é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes. E eu fui louca por muito tempo porque existe essa caixa que mulheres na música country precisam se encaixar, mas adicione uma mulher negra nessa caixa e ela fica ainda menor. Me deram essa caixa pequenininha que foi concedida a mim para fazer um pouco de barulho, mas não muito. E era sufocante. Só de assistir artistas como você, Kacey Musgraves, que não tem medo de dizer, “Foda-se vocês, é isso que eu vou fazer, é isso que vai acontecer e ponto. Vocês vão me aceitar ou não”.

Cyrus: O “ou não” é muito importante também.

Guyton: Sim. Naquele ponto, eu não tinha nada a perder porque eu nunca tive a aceitação [de Nashville] para começar. Eu tive uma conversa muito honesta com meu marido e eu o perguntei por que a música country não estava dando certo pra mim. Ele disse que era porque eu estava correndo de tudo que me fazia diferente. Ele me expôs. Foi um soco no estômago. Eu estava fazendo meu cabelo e tentando me vestir e agir como as mulheres na música country, e era tão tóxico pra mim. É isso que esse álbum é: literalmente eu me livrando de todas as correntes que eu mesma coloquei em mim. Eu não me importei aonde essa música ia chegar. As pessoas perguntavam, “Bem, você quer que chegue na rádio country?”, eu respondia, “Não vou apostar em algo que nunca me deu suporte”.

Cyrus: Isso te deixa muito vulnerável, depender do rádio ou de lealdades ou das pessoas fazerem a coisa certa. Nunca aposte em “alguém fazendo a coisa certa”. Esse é o meu conselho.

Guyton: Nunca.

Cyrus: Eu prefiro que alguém me prometa menos coisa e me entregue mais, ao invés do contrário. Porque [na] rádio, você vai tocar sua música para eles e eles vão dizer, “Isso é tão interessante, o que você está fazendo é incrível”, e aí eles nunca apertam o “play”. Depender da rádio te coloca em uma posição muito vulnerável.

Guyton: Exatamente. Meu objetivo era escrever músicas que eram verdadeiras para mim e escrever músicas country sob a perspectiva de uma pessoa negra. E a minha música country é muito diferente da de outra pessoa. Billie Jean King me disse, “Pare de aceitar as migalhas”. E quase não existiam migalhas para aceitar. Quando você parou?

Cyrus: Ontem. Eu estou descobrindo todos os dias. Eu ainda sou insegura pra caralho as vezes. 

Guyton: Eu também. 

Cyrus: Eu estou bastante confiante e muito, muito firme na minha sorte e no meu destino. Mas eu sou humana também. Ainda existem dias, mesmo após 15 anos fazendo isso, que deito minha cabeça no travesseiro a noite e digo:” O que? eu aceitei isso?” Eu me defendi outro dia durante uma gravação que estava indo mal, e me senti como um bilhão de dólares. Eu não me coloco em tantas posições de vulnerabilidade mais. Quanto mais eu me coloco em uma posição vulnerável, mais eu me permito a me apaixonar, porque isso vem com a dor, e vale a pena. Mas aquela outra merda não. 

Guyton: Isso. Arrasou!

Cyrus: Artistas em estágios diferentes de suas carreiras do que eu, perguntam: “você ainda sofre bullying?” Mas isso porque ainda existem filhos da puta. Depois do Lollapalooza eu tive uma epifania. Eu acho que não estar na frente de 200 mil pessoas por 1 ano e meio e depois estar lá novamente, me fez perceber o meu impacto e o meu poder. É como se você não soubesse o que tinha até que fosse embora. Eu tinha esquecido quem eu era.  

Guyton: Seu poder, garota, apenas observando o que você fez em sua carreira. Lembro-me de quando comecei a ver essa Miley diferente entrar em seu poder. Eu vi uma garota alta com aparência de modelo atravessar o palco com Juicy J e rebolando. Eu estava tipo, “Que diabos?”

Cyrus: Você e todo mundo.

Guyton: Você me nocauteou. Eu estava tão chateada porque pensei, “Como essa garota é capaz de fazer sua bunda fazer isso?” Suas performances são loucas pra caralho, Miley. Uma das minhas citações favoritas é de Maya Angelou, e ela diz que as pessoas vão esquecer o que você disse, vão esquecer o que você fez, mas nunca vão esquecer como você as fez sentir. E você, Miley, é o epítome de tudo isso. E a maneira como você faz as pessoas se sentirem é dando esperança às pessoas.

Cyrus: Muito obrigada.

Guyton: Eu sinto o que você fez ao longo do tempo e em sua carreira – e o fato de que você ainda está lidando com pessoas que tentam intimidar você no estúdio, o que eu nunca vou superar – eu só acho que você é uma artista incrivelmente importante… não apenas como artista, mas como vocalista. A maneira como você pode mudar completamente sua voz para qualquer coisa que decidir fazer. Como o que vem a seguir, você vai ser uma cantora de jazz?

Cyrus: Honestamente, mais ou menos. Eu posso fazer mais, sei que posso. E é isso que vai me levar a fazer meu próximo álbum. Eu não sinto que isso seja suficiente para me considerar uma das melhores cantoras de Rock dessa geração, porque não existem pessoas suficientes nesse segmento e eu quero mais competição.

E para você também, você não quer ser a única cantora negra que eles vão permitir na música country. Eu não quero apenas compartilhar minha luz, eu amo competir. Eu quero outras pessoas como eu por aí, assim eu saberei que eu mereço meu lugar pois estou lutando por ele o tempo todo. Esse é o jeito que eu penso. Eu não tenho nenhum desejo de ser a melhor, porque eu quero melhorar. E você não quer ser a melhor porque você é a única.

Guyton: Absolutamente. Principalmente para mim, na música country, havia Charley Pride. E então não havia ninguém até Darius Rucker, e então alguns caras negros aqui e ali. Havia Linda Martell, havia Rissi Palmer e depois eu. Percebi que para derrubar qualquer uma dessas portas, não basta ser apenas você. Isso nunca vai funcionar.

Cyrus: Isso foi o que eu achei muito importante sobre jogar Ryman com você. Era sobre as pessoas serem quem são, era sobre autenticidade. Eu vou ser eu, você vai ser você. Seja você mesma, vista literalmente qualquer coisa que você sinta que representa você. Meu pai levou uma merda tão forte nos anos 90 por usar Reeboks porque, se você é um cantor country, deve usar botas de cowboy.

Guyton: Bem, isso mudou. Agora, todo cara tem um Air Force 1s e uma corrente de ouro. E botas de cowboy são muito desconfortáveis.

Cyrus: Quando eu vou para uma premiação eu fico bastante entediada com “Essa é aquela cantora boa. Esse é o único cantor abertamente gay.” Existe apenas um de cada. Em quase todo o tempo, eu sinto que eu fui colocada nessas posições não por causa do meu talento, mas por causa da minha classificação – o que não me faz bem – porque é sobre conseguir que as pessoas liguem suas TV’s não para ver o que ela vai cantar, mas para ver o que ela vai fazer.  Teve um ponto que eu estava tipo “bom, se todos vocês vão assistir só por causa do que eu vou fazer, então eu vou apenas cantar”. Eu sinto que algumas vezes você tem que ser apenas isso. E é sobre isso que você estava falando, sobre esconder quem você é.

Guyton: Absolutamente.

Cyrus: Você está abrindo uma porta e quer deixar as pessoas entrarem. Um é o número mais solitário. Precisamos ser mais fortes juntos. Abra a porta, mas abra o ringue também.

Fonte | Tradução: Adalgiza Fernandes e Thayná Araújo
Equipe Miley Cyrus Brasil


Publicada por: Giullya

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